Em algum momento da sua vida você já sentiu que existe algo maior que você?

Alguns encontram o transcendente na oração, outros no silêncio da meditação, outros ainda na presença de espíritos e forças da natureza, e também há aqueles que se encontram na convergência desses estados espirituais sem conflito.

A espiritualidade é uma conexão profunda com algo maior que nós mesmos, que transcende as fronteiras das religiões e doutrinas. É um abraço invisível que nos envolve, independentemente de quem somos ou de onde venhamos.

A espiritualidade é uma experiência pessoal, que pode se manifestar de diferentes maneiras em cada pessoa. É a busca por um sentido mais profundo, uma conexão com o divino, com o universo, com a natureza ou com a própria essência humana.

O cristão pode viver a espiritualidade num grupo de oração quando é tocado pelo Espírito Santo. O xamã pode viver a espiritualidade quando tem contato com seus ancestrais e sente a luz espiritual vindo deles. O afro-religioso pode sentir a espiritualidade quando manifesta o Orixá. O espírita pode sentir a espiritualidade quando palavras de conforto vêm dos mentores. O budista pode vivenciar a espiritualidade quando obtém o reconhecimento da natureza da sua mente.

A espiritualidade une essas diferentes expressões, une todos os caminhos, como uma chama desperta que alimenta o coração. É a busca por uma conexão mais profunda com algo maior.

A busca pela espiritualidade e sua vivência é acompanhada por uma jornada sem limites; ela busca a transcendência que está além de nós e, ao mesmo tempo, dentro de nós.

Talvez você já tenha sentido esse momento em que algo maior te toca e te preenche.

Que movimenta nossa vida e nos traz propósito de ser e estar.

Esse algo maior pode ser entendido de várias formas: Deus, natureza, consciência, espíritos, ancestralidade. O ponto comum não está na crença ou descrença de alguma realidade percebida pela pessoa, mas sim na experiência espiritual.

Muitos leem livros; outros seguem práticas religiosas que realmente despertam a vivência de uma experiência espiritual que transforma e movimenta a pessoa de um ponto a outro, fazendo com que, a partir daquele momento, a vida e a consciência não sejam mais as mesmas.

A experiência espiritual nos traz a sensação de unidade, em outras palavras, uma sensação de que não estamos sozinhos e que podemos contar com algo invisível, mas vivo, que pulsa, vibra e ilumina.

Essa sensação ou visão espiritual de unidade reduz e descentraliza o ego. O ego deixa de ser condutor da realidade e torna-se copartícipe de uma união com o Divino, uma fusão com a espiritualidade, independentemente da crença que se tenha sobre ela.

A vivência espiritual proporciona um sentimento de significado profundo entre a realidade percebida e a existência da pessoa. É nesse ponto que a espiritualidade percebida pela pessoa torna-se impossível de não tocar o íntimo e a existência dela, pois ela experienciou um estado de simbiose com o espiritual que ressignifica seu estado no mundo e, consequentemente, sua maneira de pensar e agir.

Na estrutura da linguagem humana, em como o homem se comunica com os outros e percebe e interage com a realidade, há uma teoria que conceitualiza de maneira didática os diferentes fenômenos da linguagem.

São eles: símbolo, referente e significado. Essa estrutura demonstra que, para que ocorra uma comunicação, seja entre pessoas, seja entre uma pessoa e um objeto ou a natureza, esses três pilares devem existir e seguir um fio condutor para que a comunicação seja realmente efetiva.

O símbolo pode ser uma palavra, o referente o objeto, e o significado é algo que atribuímos quando nossa mente pensa sobre o símbolo e o referente.

Exemplo: a palavra árvore (símbolo) tem como referente o objeto: uma árvore realmente física. Entretanto, o significado é um conceito mental que formamos para relacionar a palavra ao objeto.

A palavra árvore é a mesma para todos; o objeto árvore é o mesmo para todos; o que muda é justamente o significado, pois árvore pode significar não somente uma árvore física, mas também algo transcendente, como crescimento, frutificação, paz, entre outros sentimentos.

Observemos que o significado é moldado pela pessoa, pela sua experiência e pela sua percepção espiritual da realidade. É nesse ponto do significado que a linguagem se comunica com a experiência espiritual ou com a vivência da espiritualidade, pois diferentes pessoas podem ter os símbolos e objetos que envolvem a espiritualidade; entretanto, o significado será diferente e único para cada pessoa. É algo íntimo, muitas vezes indescritível e talvez inacreditável para muitos.

Em outras palavras, o significado da experiência espiritual é único e varia de pessoa para pessoa, tornando a jornada espiritual inteiramente sua.

Isso me faz lembrar de um sonho em que eu olhava o livro “A Linguagem dos Pássaros” (Mantiq-at-Tayr), escrito no século XII pelo poeta persa Farid ud-Din Attar. Ao acordar, tentei entender do que se tratava o sonho.

E talvez a linguagem dos pássaros seja esse elo invisível entre a espiritualidade e nós, a jornada pessoal que cada um tem consigo mesmo e que proporciona melhores condições de ser, perceber e estar.

Talvez a Palavra perdida de que muitos discorrem seja a palavra invisível e muitas vezes indescritível da vivência espiritual de cada Ser espiritual, esse algo maior que é livre, atemporal, que não pertence a nenhuma nação e ao qual todos podem ter acesso.