O que deve ser a iluminação? Ela é um estado inalcançável? Ela é destinada somente a alguns eleitos? Será mesmo um estado que precisamos buscar ou é um estado já presente na humanidade?
São perguntas frequentes entre aqueles que se lançam a praticar a caminhada espiritual.
É um tanto difícil definirmos um conceito único para a iluminação, pois ela é abrangente dentro da seara espiritual. Em cada canto do planeta, o estado iluminado é percebido sob um prisma, sob uma perspectiva diferente.
Sob uma ótica que compartilho, penso que a iluminação, ou estado de iluminação, provém de uma fonte de luz que opera em diferentes níveis. Ela não tem definição fixa, mas pode assumir uma forma interna, outrora simbólica ou mesmo transcendente, conforme a realidade que percebemos.
Analogicamente ela pode ser compreendida como uma lâmpada que podemos acender para ter visões mais claras da realidade e, com essa lâmpada acesa, ter lampejos de sabedoria. A percepção dessa Luz não ocorre necessariamente de forma instantânea. Muitas vezes, ela se revela de maneira gradual, como uma claridade que vai se expandindo aos poucos.
À medida que essa Luz é acessada, ela começa também a retroalimentar o estado de consciência objetiva, a mente consciente. A realidade objetiva passa a ser percebida com maior clareza, como se algo dentro de nós iluminasse a forma como vemos o mundo, as pessoas e a nós mesmos. Ela pode ser compreendida como uma Luz que ilumina a mente e o coração.
Entretanto, como acessar essa Luz?
A Luz
Não conseguiremos entender o que é essa Luz sem termos uma definição para ela, mesmo que essa definição seja relativa e talvez distante do que ela realmente seja em essência. Entretanto, precisamos fornecer-lhe um substrato de existência. Essa Luz se faz presente em nossa estrutura, uma Luz radiante que possuímos em nosso estado mental mais puro e da qual podemos conseguir perceber quando atingimos um estado de unidade ou vazio da consciência.
Como dito, esse estado de unidade pode ser compreendido sob diferentes prismas: seja um estado de comunhão com Deus, um estado de visão da perda da dualidade, onde não existe você nem o outro, ou mesmo quando há a ausência de narrativa do “eu”. O self se descentraliza e abre espaço à vacuidade; a percepção de espaço-tempo é perdida e surge uma sensação de integração da persona com essa Luz.
Podemos acessá-la por vias distintas através de estados alterados de consciência, seja pelo esvaziamento ou intensificação da consciência como meditação, contemplação e relaxamento, copulação, pranayama, danças, rituais, transes, entre outros.
Há também a perspectiva de quando espíritos, anjos e deidades iluminadas (consciências iluminadas externas) tocam nossa estrutura psíquica, emocional e física, compartilhando conosco seu estado de iluminação e, dessa maneira, preenchem nossa estrutura com o néctar espiritual iluminado.
E, por último, percebo que podemos acessar a iluminação quando a Unidade Primordial, que pode ser compreendida como Deus — uma unidade de luz incognoscível —, é tocada por nossa estrutura quando nosso coração consegue alcançá-la.
Dentro dessa ótica, é secundário discutir qual é o método correto para a iluminação, pois ela depende de qual túnel de realidade você deseja caminhar para ter acesso a essa Luz. Independentemente de qual via ontológica você percebe a realidade, a Iluminação ocorre na estrutura da consciência.
O propósito da busca da iluminação é um continuum da integração da persona com a Transcendência.
Como vimos acima, há aqueles que, por escolha, sintonia ou raízes ancestrais, trilham a jornada espiritual tocando a base luminar de sua própria consciência; outros necessitam de contato com consciências iluminadas externas, que podem ser compreendidas como espíritos ou anjos; e outros necessitam que a realidade espiritual de sua busca seja o contato com o Centro Luminar Universal, compreendido como Deus.
A iluminação não é permanente como experiência, mas pode deixar marcas permanentes na forma de percepção da realidade. A Iluminação provoca uma assinatura energética na consciência. O estado iluminado é melhor compreendido se pensarmos numa fonte de águas cristalinas. O buscador espiritual pode acessar essa fonte, beber de suas águas, se saciar e retornar ao mundo. Entretanto, uma vez conhecida a fonte, o buscador precisa ter esse cuidado, esse zelo e essa proteção para que ela não seja poluída, obscurecida e, principalmente, para que seu acesso à fonte não seja corrompido.
Uma bela analogia é percebermos o estado iluminado como uma lâmpada e um interruptor, no qual, se frequentemente pressionarmos o interruptor, essa lâmpada frequentemente fica acesa. Mas também precisamos apagá-la para que nossa mente possa retornar ao mundo e vivermos normalmente dentro da realidade objetiva.
Uma vez que nossos sentidos se integram e vivenciam a experiência da Iluminação, um vetor consciencial é criado para que a experiência iluminada seja vivenciada com mais intensidade e profundidade.
Entretanto, como dizem os sábios tibetanos, uma vez conhecido o cristal, não podemos construir uma gaiola ao redor dele e permanecermos ludibriados por ele. Da mesma maneira, ao acender a lâmpada da iluminação, não devemos ficar extasiados com o estado iluminado e seus fenômenos; devemos retornar ao mundo sem apego, entretanto, dessa vez com uma percepção mais clara da realidade.
Surgimento de Fenômenos em Estados de Iluminação.
Uma vez que o buscador espiritual atinge e está vivenciando o estado iluminado, imagens simbólicas e arquetípicas podem surgir. Muitas vezes, essas imagens estão relacionadas aos arquétipos espirituais que a mente conhece ou com os quais a pessoa possui alguma identificação dentro da sua experiência espiritual ou cultural.
Em toda a história espiritual da humanidade, a visão de santos, deuses, anjos e sigilos sempre esteve presente quando as pessoas atingem certo grau de vivência do estado iluminado.
Essas imagens que surgem na visão devem ser percebidas como manifestações simbólicas que emergem quando a mente retorna da vacuidade para a diferenciação. Elas surgem de acordo com a experiência espiritual da pessoa, sua tradição, sua cultura ou os símbolos espirituais com os quais sua mente já possui alguma familiaridade.
Dessa maneira, diferentes formas podem aparecer para diferentes pessoas.
Alguns podem perceber essa manifestação como a figura de Jesus, outros como Buda, outros ainda como um animal, um espírito, um santo de devoção ou qualquer outra imagem que representa, para o buscador, a expressão simbólica da iluminação.
Podemos imaginar isso através de uma analogia simples.
Quando uma gota de água é tocada pela luz do sol, ela manifesta cores próximas às do arco-íris.
Podemos pensar o Sol como a Luz primordial,
a gota como a nossa mente,
e as cores como os fenômenos, visões ou imagens simbólicas que surgem quando a mente é tocada por essa Luz.
Assim, aquilo que percebemos como imagens ou símbolos pode ser apenas a maneira pela qual nossa mente expressa e traduz a presença dessa Luz interior.
Quais fenômenos surgem quando sua mente retorna da vacuidade ?
A Jornada Espiritual
A jornada espiritual pode ser compreendida em algumas fases didáticas. Sendo a primeira, o homem ordinário, que vive sua experiência no mundo principalmente através da mente objetiva e das necessidades da vida comum.
A segunda é o homem de aspiração, aquele que começa a perceber que existe algo maior e passa a buscar uma realidade espiritual mais profunda. Nesse estágio, a pessoa inicia práticas, estudos e reflexões que gradualmente despertam sua consciência para uma dimensão mais ampla da existência.
A terceira é o homem iluminado, aquele que já reconheceu, de alguma maneira, a presença da Luz dentro de si e passa a viver em maior harmonia com essa realidade.
Essas fases não são necessariamente definidas apenas por conceitos ou títulos, mas devem ser reconhecidas pela própria consciência do buscador. Ao longo da jornada espiritual, a vivência interior, os ritos de passagem e o contato com arquétipos espirituais vão gradualmente revelando à pessoa em que estado de consciência ela se encontra. Os mitos da humanidade costumam ser chaves simbólicas que demonstram a jornada interior que o buscador está vivenciando e transcendendo. Os ciclos da natureza, consultas oraculares e um estudo a fundo do mapa astral podem ser úteis ao buscador para uma leitura simbólica da realidade e os próprios estágios que devem ser transcorridos.
A experiência de iluminação descrita por mestres espirituais ou por aqueles que supostamente alcançaram esse estado não deve ser vista como algo destinado apenas àquelas pessoas. Tampouco os fenômenos associados à iluminação dessas pessoas pertencem necessariamente à experiência espiritual de todos.
Cada relato de iluminação reflete a vivência única de quem percorreu aquela jornada.
Por isso, é importante que possamos ler e compreender esses relatos sob a luz da convergência espiritual e sob nosso próprio prisma interior.
Cada pessoa é chamada a perceber, à sua maneira, o que significa a iluminação dentro da sua consciência e experiência espiritual.
Assim como existem milhares de estrelas no céu, cada uma com sua própria luz e características, também cada ser humano pode manifestar a luz espiritual de maneira única dentro da vastidão da experiência espiritual.